sábado, 2 de abril de 2016

Moção de Apoio ao Antropólogo Tedson Souza (UFBA)

Nós, professorxs, alunxs e pesquisadorxs vinculadxs ao Grupo de Estudos e Pesquisas em Etnografias Urbanas da Universidade Federal da Paraíba e da Universidade Federal de Campina Grande (Guetu – UFPB/UFCG) viemos através deste expor nosso apoio e solidariedade ao antropólogo Tedson da Silva Souza, doutorando em Antropologia Social pela Universidade Federal da Bahia. Na última segunda-feira, dia 26 de março de 2016, o pesquisador foi vítima de comentários vexatórios e de conteúdo discriminatório por parte do vlogger Izzy Nobre em virtude de sua dissertação de mestrado, defendida em 2012 sobre experiências de encontros homoeróticos masculinos em banheiros públicos da estação da Lapa, na cidade de Salvador.  A dissertação de Tedson foi, a partir de seu tom particular e experiencial, característica comum a muitas investigações no âmbito das ciências sociais, em especial a Antropologia, reduzida a um comentário de “118 páginas de contos eróticos”, ignorando as contribuições oferecidas pelo pesquisador no debate contemporâneo sobre marcadores sociais da diferença, disputas no território urbano, ressignificações nos usos dos espaços, saúde, sociabilidades, entre outras questões e problemáticas que podem ser retiradas do trabalho.

Reiteramos ainda o histórico de situações e comentários desse tipo a partir de comunidades e grupos nos veículos da mídia e em redes sociais que nos últimos anos vem tentando deslegitimar os esforços intelectuais e acadêmicos de pesquisadoras e pesquisadores que têm se dedicado à reflexão sobre contextos, conjunturas, práticas e sentidos atribuídos por grupos subalternizados às suas existências, desejos e experiências afetivas e sexuais. Vítimas desses ataques foram, além de Tedson, a pesquisadora Mariana Gomes e Victor Hugo Barreto, ambos da Universidade Federal Fluminense em seus trabalhos de mestrado sobre Valesca Popozuda e as representações femininas do universo do funk e sobre prostituição masculina, respectivamente.

 Acreditamos que em sua especificidade as reflexões sobre erotismos, sexualidades diversas, normatividades e subjetividades constituem temas legítimos de reflexão antropológica, sociológica, histórica, literária ou de qualquer outra natureza. O compromisso dos cientistas é construído na comunidade e na relação com a sociedade a partir dos rigores metodológicos e teóricos a que qualquer problemática é discutida e avaliada, não de noções preconcebidas sobre a maior ou menor relevância de um tema para uma coletividade. O estudo de e em grupos, comunidades e coletividades subalternizados, vítimas de opressões e estigmatizações constitui um esforço histórico das ciências sociais e humanas na reflexão sobre a realidade social e não deve, em hipótese alguma, ser pensado como desmerecedor de investimentos tanto teóricos e acadêmicos quanto financeiros por parte das instituições de apoio ao desenvolvimento técnico-científico, a exemplo da Capes, CNPq e fundações de amparo à pesquisa.

João Pessoa, 01 de abril de 2016.

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